Se alguém tivesse me contado, em 2022, que quatro anos depois eu estaria escrevendo uma matéria sobre design, provavelmente eu não acreditaria.
Naquela época, eu só queria conseguir meus primeiros clientes.
Eu não tinha formação em Design, nunca tinha feito um curso completo na área e também não tinha um grande plano de carreira. Eu simplesmente descobri uma profissão que fazia sentido para mim e resolvi aprender.
Tudo o que eu sabia vinha da internet, de muita prática e de inúmeros erros. Eu passava horas pesquisando, testando ferramentas e tentando entender como funcionava aquele universo. Foi assim que comecei a criar os meus primeiros logotipos.
E, olhando para trás, acho curioso perceber que eu entrei no mercado exatamente da mesma forma que milhares de designers entram todos os anos: sem uma estrutura perfeita, sem equipamentos de última geração e sem esperar o momento ideal.
Na minha opinião, essa continua sendo uma das maiores vantagens da profissão.
Você não precisa esperar cinco anos para começar.
Você não precisa fazer um investimento enorme.
Você pode aprender com o que tem.
Mas existe um outro lado dessa história que quase ninguém comenta.
Justamente porque é uma profissão com uma barreira de entrada tão baixa, ela também se tornou uma das mais difíceis para quem deseja construir uma carreira sólida.
E foi isso que eu descobri ao longo desses quatro anos.
A facilidade para começar também é o que torna essa profissão tão desafiadora
Quando eu digo que o design é uma profissão acessível, não estou dizendo que ela é fácil.
Na verdade, acho que acontece justamente o contrário.
É relativamente fácil entrar no mercado, mas permanecer nele é outra história.
No começo da minha carreira eu via isso de uma forma muito diferente. Eu pensava: "Se eu estudar bastante, entregar um bom trabalho e me dedicar, naturalmente vou conseguir crescer.
Só que, na prática, percebi que talento sozinho não resolve.
Com o tempo, fui entendendo que um dos maiores desafios da profissão não é aprender a usar um software. Também não é acompanhar tendências ou descobrir qual ferramenta está em alta. O maior desafio, na minha opinião, é fazer o cliente entender que nem todo designer entrega a mesma coisa.
E talvez esse seja o ponto que mais prejudica a nossa profissão hoje.
Como praticamente qualquer pessoa pode aprender o básico e começar a oferecer serviços, criou-se a ideia de que design virou uma commodity. Para muita gente, não importa quem está fazendo o projeto. O que importa é receber um logotipo no final.
Só que aí eu te faço uma pergunta.
Se todos os designers fazem a mesma coisa, por que algumas empresas investem R$ 200 em uma marca e outras investem R$ 20 mil?
A resposta nunca esteve no desenho.
Ela está no processo.
No começo, eu também fazia logotipos. Era o que eu sabia fazer e era o que os clientes procuravam. Mas depois de alguns projetos comecei a perceber um padrão. Muitos clientes saíam felizes com o resultado, mas, alguns meses depois, continuavam enfrentando os mesmos problemas. A empresa não conseguia transmitir profissionalismo, a comunicação era confusa e a marca continuava sem uma identidade clara.
Foi aí que eu percebi que o logotipo não era o problema.
E também não era a solução.
Foi uma das viradas mais importantes da minha carreira.
Eu entendi que o cliente não precisava apenas de um símbolo bonito. Ele precisava de direção. Precisava entender quem era a empresa, como queria ser percebida e qual mensagem queria transmitir. O design passou a ser consequência desse processo, e não mais o ponto de partida.
Foi justamente nessa época que comecei a mergulhar no branding de uma forma muito mais profunda. Eu queria entender por que algumas marcas eram lembradas e outras passavam despercebidas. Quanto mais eu estudava, mais ficava claro para mim que uma marca é muito maior do que um logotipo.
Ela é feita de decisões.
Da forma como a empresa se comunica.
Da experiência que entrega.
Da percepção que constrói ao longo do tempo.
Foi dessa mudança de visão que nasceu, anos depois, o Fórmula Significada. Não porque eu queria criar um método, mas porque, depois de tantos projetos, percebi que já existia um processo acontecendo. Eu só precisava organizar aquilo que fazia naturalmente.
Hoje, quando alguém me pergunta o que eu faço, eu costumo responder que ajudo empresas a dar forma ao que elas querem significar. Porque, no fim das contas, é isso que uma designer de marcas faz. Ela traduz em imagem aquilo que muitas vezes o próprio empreendedor ainda não conseguiu colocar em palavras.
Mercado em números
Segundo o relatório Design Economy 2025, da InVision, empresas que investem em design de forma estratégica apresentam melhores resultados em inovação, experiência do cliente e crescimento do negócio. O estudo reforça algo que vejo na prática: quando o design participa das decisões estratégicas, ele deixa de ser um custo e passa a ser um investimento.
O maior desafio da profissão nunca foi aprender design. Foi fazer o mercado entender o valor dele.
Se tem uma coisa que aprendi ao longo da minha trajetória é que ser um bom designer não garante, necessariamente, que você será valorizado pelo mercado. Você pode estudar, desenvolver um bom processo, entregar projetos consistentes e ainda assim ouvir perguntas como: "Mas por que eu pagaria R$ 10 mil se encontrei alguém que faz por R$ 200?
E, sinceramente, eu nem culpo o cliente por pensar dessa forma.
Na maioria das vezes, ele simplesmente não consegue enxergar a diferença entre um serviço e outro. Para quem está de fora, todos parecem oferecer a mesma coisa: um logotipo. O que ele não vê é tudo o que acontece antes da criação. Não vê a pesquisa, a estratégia, o posicionamento, as reuniões, as decisões e todo o raciocínio por trás de um projeto de marca.
É justamente aí que mora uma das maiores barreiras da nossa profissão. Como o design tem uma barreira de entrada relativamente baixa, existe uma quantidade enorme de profissionais entrando no mercado todos os anos. Isso, por si só, não é um problema. Eu comecei exatamente assim, estudando por conta própria. A questão é que essa realidade faz com que muitos clientes passem a acreditar que todo designer entrega a mesma coisa.
Talvez seja justamente por isso que eu costumo dizer que o designer precisa vender o próprio trabalho o tempo inteiro. Não apenas quando envia uma proposta comercial, mas durante todo o projeto. A cada reunião, a cada apresentação e a cada decisão, nós precisamos mostrar ao cliente o motivo por trás das escolhas que estamos fazendo. Porque, quando ele entende o processo, deixa de comparar apenas o preço e começa a enxergar o valor.
A inteligência artificial mudou o mercado. Mas eu não acredito que essa seja a nossa maior ameaça.
É impossível falar sobre design em 2026 sem falar sobre inteligência artificial.
Ela mudou a forma como trabalhamos, acelerou processos e colocou ferramentas extremamente poderosas nas mãos de qualquer pessoa. Hoje, quem nunca abriu uma IA para pedir um post para Instagram, um logotipo ou uma imagem provavelmente está na minoria.
Eu mesma utilizo inteligência artificial no meu dia a dia.
Ela me ajuda a organizar ideias, pesquisar referências, estruturar conteúdos e até ganhar tempo em tarefas que antes eram muito repetitivas.
Então não faz sentido demonizar a tecnologia.
Ela veio para ficar.
O que eu não concordo é quando dizem que ela vai substituir completamente o trabalho do designer.
Na minha opinião, ela substitui execução, mas não substitui pensamento.
Vou dar um exemplo bem simples.
Hoje qualquer pessoa consegue pedir para uma IA criar um flyer. Em poucos segundos ela entrega um layout bonito. Só que ela não sabe se aquele arquivo está pronto para impressão, se está na configuração de cor correta, se existe sangria, margem de segurança, resolução suficiente ou se aquela arte realmente funciona na gráfica onde será produzida.
Inclusive, uma pesquisa publicada pelo Meio & Mensagem mostrou que 94% dos designers brasileiros já utilizam inteligência artificial em seus processos de trabalho e 66% fazem isso diariamente. Isso mostra que a IA deixou de ser um diferencial e passou a ser mais uma ferramenta de trabalho. O que continua diferenciando um profissional é a forma como ele pensa e aplica essa tecnologia, não simplesmente o fato de utilizá-la.
Mas existe uma reflexão que venho fazendo há algum tempo e que talvez ainda seja cedo para afirmar com certeza.
Eu acredito que, quanto mais conteúdo gerado por inteligência artificial começar a ocupar as redes sociais, maior vai ser a necessidade de diferenciação.
Hoje já é possível perceber alguns padrões.
As mesmas estéticas.
As mesmas composições.
As mesma fontes.
Os mesmos textos.
Em muitos casos, basta bater o olho para perceber que aquilo foi feito por uma inteligência artificial.
E eu acho que isso tende a acontecer cada vez mais.
Quando todo mundo começa a produzir conteúdo de um jeito muito parecido, aquilo que foge do padrão naturalmente chama atenção.
É exatamente isso que acontece com as marcas.
As empresas não investem em branding para serem iguais às outras. Elas investem para serem reconhecidas.
Para ocuparem um espaço próprio na cabeça das pessoas.
Por isso, eu acredito que a inteligência artificial pode, paradoxalmente, aumentar o valor do trabalho humano.
Não porque ela vai desaparecer.
Mas porque ela vai tornar a autenticidade ainda mais rara e mais cara.
Quando qualquer pessoa conseguir criar uma imagem bonita em poucos segundos, a estética deixa de ser um diferencial.
O diferencial passa a ser a intenção por trás daquela imagem.
Talvez eu esteja errada.
Talvez esse movimento demore alguns anos para acontecer.
Mas, olhando para a forma como as pessoas se comportam, eu acredito que existe uma tendência natural de buscar aquilo que é diferente quando tudo começa a ficar igual.
E, se isso realmente acontecer, o designer que souber pensar estrategicamente terá muito mais espaço do que aquele que apenas domina ferramentas.
Apesar dos desafios, eu ainda escolheria essa profissão de novo.
Depois de tudo o que falei até aqui, alguém pode pensar que eu me arrependo de ter escolhido o design.
E a resposta é justamente o contrário.
Se eu pudesse voltar para 2022 sabendo de todos os desafios que enfrentaria, eu escolheria essa profissão de novo.
Porque, na minha opinião, ela continua oferecendo oportunidades que poucas carreiras conseguem oferecer hoje.
Uma delas é a liberdade.
O design não coloca você dentro de uma única caixa. Ao longo da carreira, você pode descobrir diferentes caminhos e construir um trabalho que faça sentido para o momento da sua vida. Tem gente que trabalha exclusivamente com identidade visual, outros preferem branding, alguns seguem para UX, direção criativa, social media, embalagens, design editorial ou até consultoria. E isso é algo que eu gosto muito na profissão: você não precisa fazer a mesma coisa para sempre.
Eu mesma comecei criando logotipos e, hoje, meu trabalho está muito mais voltado para estratégia de marca do que apenas para a construção da identidade visual. Foi uma evolução natural, conforme fui entendendo que gostava muito mais de resolver problemas do que simplesmente criar peças.
Outro ponto que considero uma grande vantagem é a possibilidade de trabalhar de qualquer lugar.
Hoje eu consigo atender clientes de diferentes cidades e até de outros países sem precisar sair do meu escritório. Isso amplia muito as possibilidades da profissão e faz com que o mercado deixe de ser apenas a cidade onde você mora. Quando comecei, eu jamais imaginava que desenvolveria projetos para empresas fora do Brasil, e hoje isso faz parte da minha realidade.
Também gosto do fato de que o design não tem um teto salarial definido.
É claro que ninguém começa cobrando valores altos. Eu também não comecei. Existe um processo de aprendizado, construção de portfólio, posicionamento e confiança. Mas é uma profissão em que o crescimento depende muito mais da capacidade que você desenvolve ao longo da carreira do que de um plano de cargos e salários.
Você encontra profissionais cobrando R$ 300 por um projeto e encontra empresas especializadas em branding desenvolvendo projetos de centenas de milhares de reais. Essa diferença existe porque o mercado não remunera apenas a execução. Ele remunera o impacto que aquele trabalho pode gerar para um negócio.
E talvez esse seja um dos aspectos que mais me motivam.
Quanto mais você estuda, quanto mais experiência acumula e quanto melhor aprende a resolver problemas, maior tende a ser o valor do seu trabalho.
É uma profissão que recompensa evolução.
Então, ainda vale a pena ser designer em 2026?
Se você tivesse me feito essa pergunta quando comecei, provavelmente eu responderia baseada no que imaginava que a profissão fosse.
Hoje, a minha resposta é baseada no que vivi.
Ser designer nunca foi apenas aprender a usar um software. Também nunca foi apenas fazer um logotipo bonito.
Ao longo da minha trajetória, percebi que essa profissão exige muito mais do que criatividade. Ela exige estudo, comunicação, estratégia, capacidade de resolver problemas e, principalmente, a habilidade de fazer o cliente enxergar valor naquilo que, muitas vezes, ele não consegue ver.
É uma profissão que tem desafios reais. A concorrência é grande, o mercado ainda desvaloriza muitos profissionais e a inteligência artificial mudou completamente a forma como trabalhamos. Fingir que esses problemas não existem seria olhar apenas para o lado bonito da carreira.
Ao mesmo tempo, também é uma profissão que me deu oportunidades que eu jamais imaginei quando comecei em 2022. Me permitiu atender empresas de diferentes lugares, construir um método próprio, conhecer pessoas incríveis e participar da construção de marcas que carregam histórias, sonhos e objetivos muito maiores do que um logotipo.
Talvez seja justamente isso que me faça continuar acreditando no design.
As ferramentas vão continuar mudando. Daqui a alguns anos provavelmente estaremos usando tecnologias que hoje nem imaginamos. Mas empresas continuarão precisando se posicionar, criar conexões, transmitir confiança e construir marcas que façam sentido para as pessoas.
E, enquanto existirem pessoas criando negócios, existirão pessoas precisando comunicar esses negócios da melhor forma possível.
É por isso que eu não acredito que o futuro pertença ao designer que sabe usar mais ferramentas.
Na minha opinião, o futuro pertence ao designer que consegue pensar melhor.
Que entende o negócio antes de pensar na estética.
Se você está começando agora, talvez este seja o melhor conselho que eu poderia dar: aprenda as ferramentas, porque elas são importantes. Mas não pare nelas.
“Eu comecei criando logotipos. Hoje, construo marcas que fazem sentido antes mesmo de fazerem sucesso.” — Dani Escatalini
E talvez essa seja a maior lição que o design me ensinou até aqui.
No final, nunca foi sobre forma.
Sempre foi sobre significado.
